A estranha linguagem da consultoria

Fernando XimenesConquistar Clientes, Trabalhar com Consultorias Externas

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Hoje em dia, falar e ser entendido tornou-se um diferencial para os consultores.

Será que algum executivo, em sã consciência, recorreria a um consultor para disruptar os disruptores; preparar a empresa para a era da urgência; tornar a organização imune ao futuro; soltar as amarras do capital humanopraticar o ju-jitsu disruptivo; conduzir um detox da organização; ressetar a cultura organizacional; implantar um centro nervoso de resiliência; projetar a sombra da liderança inclusiva; reimaginar os ecossistemas regionais dos quais a empresa participa; compreender a colisão inesperada entre estratégia / organização, e as as forças do mundo digitalequilibrar a performance tática com a performance adaptativa?

Parece conversa de bêbado, mas estas proposições são reais, e partem de grandes empresas de consultoria. Todas elas foram publicadas num curto espaço de tempo, e “vendidas” como receitas de sucesso. E talvez sejam mesmo, mas com o devido respeito, é preciso perguntar: “O que está acontecendo com vocês?”

Consultores deveriam ser mestres das palavras. Quase tudo o que fazemos depende da nossa habilidade de articular e comunicar ideias. A descrição dos serviços; a demonstração dos diferenciais; a redação das propostas; a documentação das necessidades dos clientes; as recomendações e as instruções operacionais e, sobretudo, o alinhamento e a coordenação das equipes em torno de objetivos comuns depende de uma linguagem clara e precisa. Mas parece que perdemos o rumo.

Pegando apenas o primeiro tema, a disrupção, vale a pena ouvir o que diz o criador do conceito, Clayton Christensen:

“Tenho uma preocupação. Na minha experiência, há gente demais falando em “disrupção” que nunca leu um livro ou um artigo sério sobre o assunto. Quase sempre usam o termo para invocar o conceito de inovação, como forma de dar credibilidade a qualquer coisa que queiram fazer. Muitos pesquisadores, autores e consultores chamam de “inovação disruptiva” qualquer situação na qual um segmento de mercado seja transformado, e as empresas que antes tinham uma posição dominante passam a enfrentar problemas.”

Estas afirmações estão na edição de dezembro de 2015 da Harvard Business Review. No artigo, Christensen vai além, e mostra como o Uber (talvez um dos exemplos de “disrupção” mais citados entre nós) jamais poderia ser considerado uma inovação disruptiva por quem sabe do que está falando. Porém hoje disrupção serve para designar quase tudo que pareça radical ou inovador, na busca desesperada por likes clicks. E perdeu completamente o significado.

Se quisermos ir mais fundo, esbarraremos em situações constrangedoras. Ao redigir os textos que compõem a base conceitual da Escola da Consultoria, fui buscar autores que respeito na esperança de encontrar uma boa definição de consultoria. Porém constatei que Alan Weiss, David Maister, Edgar Schein, Gerald Weinberg, Robert Schaffer, Peter Block e Peter Drucker discordam sobre o significado daquilo que fazem e ensinam.

O problema não termina aí. Experimente perguntar a cinco pessoas razoavelmente bem informadas sobre o sentido de termos que usamos no dia-a-dia, tais como liderança, inovação, valor, estratégia, modelo de negócio, coaching, transformação digital ou qualquer outro que frequente o universo da gestão empresarial.

Posso afirmar, por já ter feito isso, que as respostas variarão quase sempre de um silêncio constrangido a uma série de lugares comuns, passando por explicações que até podem ter lógica, mas são inconsistentes entre si.

Com diria Caetano Veloso, “alguma coisa está fora da ordem”.

A continuarmos assim, chegará um dia em que falar e ser compreendido se tornará o grande diferencial dos consultores.

Mas enquanto isso não acontece, está mais do que na hora de deixarmos de ser bonecos de ventríloquo de qualquer mercador de ideias. Não é para isso que trabalhamos tanto, e definitivamente não é para isso que somos pagos. Na consultoria, a consciência e a coerência das palavras é indissociável da validade das ações.

A propósito, a pintura de Pieter Bruegel, genial artista holandês do século XVI que ilustra este artigo, chama-se Torre de Babel. Ela remete à história bíblica segundo a qual, incomodado com a insistência dos homens em construir uma escada que os levasse aos céus, Deus teria feito com que cada um passasse a falar uma língua diferente, de modo que a comunicação entre eles se tornasse impossível, e a arrogância fosse punida com o fracasso.

Qualquer semelhança com o universo corporativo será mera realidade.