Burnout na consultoria: precisamos falar sobre isso

Fernando XimenesCrescer Profissionalmente

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A Organização Mundial de Saúde classifica o burnout (esgotamento mental e físico) como “uma síndrome resultante do stress crõnico no trabalho, que a pessoa não foi capaz de controlar com sucesso.”

O burnout está atingindo proporções epidêmicas (…) Nem tanto porque algo errado tenha acontecido conosco, mas pelo fato de que ocorreram mudanças fundamentais no ambiente de trabalho e na natureza dos nossos empregos. Atualmente, o ambiente de trabalho é frio, hostil, e exigente ao extremo, tanto econômica quanto psicologicamente. As pessoas estão emocional, física, e espiritualmente esgotadas. As demandas diárias do trabalho, da família, e de tudo o que existe entre as duas rouba sua energia e seu entusiasmo. A alegria do sucesso e a adrenalina da realização se tornam cada mais mais distantes e difíceis de obter. A dedicação e o comprometimento com o emprego estão desaparecendo. As pessoas estão se tornando cínicas, mantendo distância, tentando não se envolver com mais nada.

(…) A raiz do problema está nas tendências econômicas, na tecnologia, e na filosofia gerencial.(1)

Neste primeiro artigo de uma série que abordará o burnout dentro da consultoria, vamos tentar responder a algumas perguntas que talvez você esteja se fazendo . Mas, antes disso, precisamos compreender a abrangência e a urgência do problema.

Dados do Fórum Econômico Mundial 2019

Embora não existam ainda levantamentos confiáveis sobre a situação brasileira, os dados provenientes de diversos outros países não diferem significativamente dos Estados Unidos (2), variando apenas na inclusão / exclusão de algumas profissões. Mas o alerta da Organização Mundial de Saúde é geral. Até porque, sem exceção, a curva anual da população afetada pelo burnout aponta para cima no mundo inteiro.

O fato de os consultores não aparecerem em nenhuma dessas pesquisas faz lembrar uma quase-piada dolorosa segundo a qual metade da população trabalha mais do que 40 por semana, outros tantos trabalham entre 40 e 60 horas, mas esses números não incluem os consultores, que estavam ocupados demais para responder.

Olhando no espelho, e espiando para o lado, sabemos o quanto isso é uma triste verdade. Porém o burnout é uma síndrome grave, da qual o excesso de trabalho é apenas um dos componentes.

Quais as causas do burnout?

Embora se reflita nas pessoas, o burnout não acontece por falha ou incompetência dos indivíduos, e sim devido ao ambiente social em que eles atuam. Quando o meio profissional deixa de reconhecer o lado humano, o risco do burnout se eleva exponencialmente.

Estas são as causas principais:

  • A sobrecarga de trabalho: é praticamente zero o número de consultores que trabalham dentro do expediente regular. Horário de almoço, noites, finais de semana, e feriados, tornaram-se horas “úteis” contínuas. Há um efeito perverso escondido nisso, já que grande parte dessas horas jamais é paga (embora o pagamento não resolva a questão da sobrecarga) nem compensada com descanso, e elas passam a ser uma forma disfarçada de desconto dado pelas consultorias aos clientes, às custas dos consultores. Este é um tema grave, que precisa ser trazido para a luz do dia.

A sobrecarga tem ainda duas outras dimensões além do tempo: o ofício dos consultores se tornou mais intenso, devido à exigência de produtividade máxima; e mais complexo, devido ao contexto socioeconômico turbulento das organizações.

  • A ausência de controle: por mais que se fale em gerenciamento do tempo, a verdade é que os consultores perderam a capacidade de administrar suas prioridades e controlar sua agenda, planejando e reservando espaço para as obrigações profissionais e para as atividades de lazer. 

Demandas imprevistas, crises, chamados de clientes, retrabalho e superposição de projetos são parte da rotina. Nunca antes os gerentes de consultoria foram responsáveis por tantos projetos simultâneos, ou consultores compartilhados por projetos para os quais nem sempre estão devidamente qualificados.

Embora “vendidos” e cobrados por eficácia, os consultores se sentem pessoalmente improdutivos e desorganizados.

  • Falta de compensação: no ambiente terrivelmente competitivo de hoje, os clientes achacam as consultorias nos honorários, e as consultorias comprimem a remuneração dos consultores, quando não os transformam em gig workers – um termo que tem perfume de modernidade e fedor de escravidão. Baixos salários, e insegurança no emprego.

Não é uma questão de malícia, mas um problema estrutural que não dá mostras de se atenuar.

David Maister (3), um dos mestres da nossa profissão, foi duas décadas atrás um dos primeiros a alertar para o fato de que os consultores eram ensinados a pensar que faziam parte de uma elite, mas logo se viam tratados como um fornecedor qualquer. Ou seja: até mesmo a compensação subjetiva de status e prestígio se esvai.

  • A perda do prazer do trabalho: a consultoria é apaixonante; mas mesmo as paixões intensas um dia arrefecem quando o prazer acaba. A mistura tóxica de sobrecarga, ausência de controle e falta de compensação destrói a motivação.

Um grande paradoxo foi constatado recentemente por uma pesquisa feita na Universidade de Yale, quando se investigou a relação entre o burnout e o engajamento dos profissionais. Contrariamente às expectativas dos pesquisadores, a intensidade do burnout se revelou maior entre os mais competentes e mais comprometidos que, entretanto, não conseguiam separar o que era uma responsabilidade pessoal justificada e o desejo impossível de salvar projetos condenados, apesar de não confiarem nas suas chefias.

O mesmo David Maister, reportando um levantamento que fez entre as grandes consultorias globais, menciona que pouco mais de 20 por cento dos consultores se sentiam plenamente satisfeitos com a profissão.

E aqui surge um efeito danoso, pois quanto menor o prazer no trabalho, maior a importância que os consultores atribuem ao dinheiro, com uma série de implicações negativas tanto para a autoestima, quanto para a colaboração efetiva.

  • O abalo nas relações pessoais: passamos a maior parte do tempo com nossos colegas de trabalho; muito mais do que com companheiros ou companheiras, filhos, pais, avós e amizades variadas. É incontável o número de crises familiares causadas pela ausência física e psicológica entre os consultores.

O ar puro dos pensamentos e sentimentos que sopra da convivência com outras gentes, em situações variadas, acaba poluído por conversas e interesses estreitos, que giram em torno dos temas profissionais e hábitos similares de consumo.

Na medida em que a segurança no emprego desaparece, os vínculos pessoais se fragmentam. O compromisso das consultorias com os consultores é hoje significativamente menor do que há alguns anos. Vai longe o tempo em que as consultorias investiam no desenvolvimento pessoal dos seus consultores. A alocação aos projetos tem muito mais a ver com a lucratividade de curto prazo (necessária, sem a menor dúvida) do que com a carreira (igualmente indispensável).

A nossa vida cada vez mais nômade é um agravante, pulando de cidade em cidade, quando não mudando de cidade e carregando junto a família (ou deixando a família para trás), sem falar nas amizades de longa data que se tornam meros contatos em redes sociais.

  • A sensação de injustiça: sentimos que o ambiente de trabalho é justo quando três elementos estão presentes: confiança, franqueza e respeito.

A confiança deveria existir em dimensões: entre os consultores e a empresa de consultoria (acreditando que cada um cuida com a melhor das intenções possíveis dos interesses legítimos do outro); entre os clientes e a consultoria (tendo a tranquilidade de que haverá um equilíbrio justo de valor para ambas as partes); e entre as equipes de consultores (sabendo que o jogo é limpo, que a carga de trabalho e responsabilidade é equilibrada, e que é possível saltar sem preocupação com o paraquedas do outro).

A franqueza está diretamente ligada a inexistência de assuntos que não “podem” ser discutidos abertamente, e fervilham abaixo da superfície. 

O respeito, vai muito além de palavras cordiais, pois se assenta na empatia, na percepção das necessidades alheias, nas instruções não abusivas, e na hierarquia sensata.

A própria frequência com que esses temas são abordados na literatura gerencial, nos sites das consultorias, e em artigos espalhados pelos blogs, mostra que a situação está muito longe de ser a ideal. A crise endêmica do Brasil e das economias mundiais serve como desculpa perfeita para que as fronteiras básicas da justiça sejam deixadas de lado.

  • Conflitos de valores: talvez haja poucas coisas piores para um consultor do que se descobrir numa empresa cujos princípios são diferentes dos seus. E não falo aqui, necessariamente, de desonestidade, que também pode existir; falo, por exemplo, de afrouxar os padrões profissionais e entregar projetos com um nível de qualidade abaixo do que o consultor aprendeu a produzir.

Outro impasse é pertencer a uma consultoria cuja imagem e cujo discurso externo contradizem o que acontece das portas para dentro.

Outro mais é ter que dar o melhor de si para realizar um projeto cujos resultados ajudam o cliente a fazer coisas que se chocam com a sua ética pessoal. 

Nenhum desses fatores sozinho é suficiente para desencadear o burnout. Porém a sua presença combinada e repetida está na origem da epidemia identificada pela Organização Mundial da Saúde, e pelos nossos olhares atentos.

Dois estados de ânimo, em particular, são extremamente corrosivos: a resignação, que é a sensação de impotência, de incapacidade de agir e mudar o curso da carreira e da vida; e o ressentimento, que é a atitude de se sentir cronicamente diminuído e desvalorizado pela empresa e pela família.

Quando eles surgem, devemos fazer soar o alerta vermelho.

Onde está a saída?

Por mais depressivo que seja este quadro, certamente existem saídas boas.

Tudo começa por compreender que algumas causas são inevitáveis, outras são evitáveis, e outras mais estão totalmente sob o nosso controle. É o que veremos no próximo artigo desta série, quando falarmos sobre as origens econômicas, sociais e pessoais do burnout.

Um outro passo é conhecer os sintomas iniciais do burnout, e agir sobre eles tão rápido quanto possível. Depois de instalado, o burnout exige intervenções médicas, e todo o esforço é válido para que não cheguemos lá. Falaremos disso no terceiro artigo da série.

Por fim, é preciso ter a coragem de impedir que sua carreira seja terceirizada para qualquer empresa de consultoria ou, pior ainda, para as forças do mercado. Resiliência tem limites, e não devemos brincar de dobrar as costas para descobrir até onde elas resistem sem quebrar.

Construir uma estratégia que permita assumir o controle da carreira é essencial. Não por acaso, esta foi a primeira das oficinas da Escola da Consultoria, que você pode experimentar sem custo e sem ter que fazer qualquer cadastro seguindo este link.

O quarto e último artigo desta série falará sobre como (re)construir o prazer e o orgulho de ser consultor. Pois, quando bem conduzida, dificilmente há profissão melhor do que a nossa.

O problema é que, ao se informar erradamente no começo, ou dar ouvidos às fontes erradas, você estará sujeito a atender com “sucesso” a um conjunto de expectativas totalmente falsas. Você chegará com “brilhantismo” ao triste estado (que encontro frequentemente nos meus programas de mentoria) quando consultores chegam dominados pelo burnout, alienados de suas famílias, perdendo dinheiro … e passando por situações que jamais aprovariam em seus próprios clientes.

Estamos cercados de conselhos equivocados sobre a profissão de consultoria, e existem mais pessoas espalhando segredos de sucesso do que consultores bem sucedidos. E isso deveria sinalizar, para você, que não importam os cabelos brancos, não importam os anos de consultoria, não importam as alegações de experiência. Não acredite em quem considera a consultoria uma profissão onerosa e difícil.

A consultoria é uma das melhores profissões do mundo, desde que você tenha os recursos, o foco, o talento e a paixão de ser consultor. A sua expectativa correta deve apontar para um ofício que leva sucesso aos clientes, e através disso permite que você alcance a prosperidade pessoal, e construa uma vida rica e compensadora para você e sua família.

Se não é isso o que espera, por que motivos você está pensando em construir um futuro na consultoria? [Alan Weiss] (4)

 

Fernando Barcellos Ximenes

Escola da Consultoria

 

(1) Christina Maslach e Michael P. Leiter, How Organizations Cause Personal Stress And What To Do About It, Jossey-Bass, 1997

(2) https://www.weforum.org/agenda/2019/05/burnout-is-making-us-worse-at-our-jobs-according-to-the-who/

(3) David Maister, Managing the Professional Service Firm, Wiley, 1997

(4) Alan Weiss, Getting Started in Consulting, Wiley, 2009