O Consultor e o Tempo

Fernando XimenesCrescer Profissionalmente

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Há um mundo de distância entre ser consultor e entregar a vida à consultoria.

Dinheiro não é riqueza. Riqueza é o tempo discricionário – o tempo que você dedica à família, os amigos e aos seus interesses pessoais. Sempre é possível fazer mais dinheiro; é impossível fazer mais tempo.

Alan Weiss

A história é falsa, mas nem por isso deixa de ter um fundo de verdade. Conta-se que foi feita uma pesquisa em diversos países para saber quantas horas as pessoas entregavam ao trabalho. Cerca de 50% passavam das 40 horas semanais; 25% chegavam a 60 horas. Porém a pesquisa não incluiu os consultores, que estavam ocupados demais para responder.

Já este outro texto, escrito por um advogado, é a expressão da realidade. Nada mais fiz do que substituir termos genéricos por outros relacionados à consultoria.

Muitos consultores sofrem diariamente com o excesso de jornada de trabalho. Em algumas empresas, para preservação do emprego, o consultor se sujeita a trabalhar 11 (onze), 12 (doze), até mesmo 14 (catorze) horas, privando-se do convívio com seus familiares e de projetos da vida pessoal (lazer, estudo, etc.).

Em algumas situações, os consultores sofrem com a perda total do convívio familiar (inclusive com a ruptura do casamento / relacionamento), diante da degradante e excessiva rotina de trabalho. Afinal, quem suporta conviver com cônjuge ausente e focado (desgastado) tão somente no trabalho?

Difícil é a tolerância com o cônjuge / convivente que “leva” trabalho para casa, como exemplo, os que suportam a nociva jornada de prontidão – aguardando o comando de trabalho por aparelhos móveis e outros dispositivos tecnológicos.

Ademais, qual a finalidade de tanta dedicação ao trabalho concomitante ao prejuízo da harmonia familiar? O lucro da empresa de consultoria vale mais que a boa convivência familiar? Tal situação tem sido cotidianamente exposta na Justiça do Trabalho cujas repercussões merecem atenção, vez que a submissão à jornada excessiva de trabalho pode decorrer da tentativa de salvaguardar o emprego.

Vitor Ferreira de Campos, Advogado

Isso para não falar na condição dos consultores subcontratados e PJs, embalados na modernidade enganosa da gig economy, para os quais inexiste sequer a proteção formal da lei.

Mesmo deixando de lado a letra fria do direito, estes outros comentários, feitos por quem é reconhecido como um “consultor dos consultores”, deveriam nos deixar ainda mais intrigados:

Percebo, com frequência, que muitos consultores padecem de um choque de status. Acreditavam que fariam parte de uma elite intelectual, e que seriam tratados pelos clientes como se fossem gurus. Mas logo descobrem que são vistos como simples fornecedores, sem nenhum tipo de respeito ou privilégio especial. […] Aceitam que seja assim porque precisam ganhar a vida, mas internamente sentem que deveriam estar fazendo algo mais “nobre”. Atraídos pela promessa de prestígio e dinheiro associada à consultoria, logo descobrem que o preço a ser pago não traz satisfação.

David Maister

Estas palavras foram escritas em 1997, e lá se vão mais de 20 anos. Desnecessário lembrar o quanto o problema se agravou nestas duas décadas de profundas transformações no mundo e na nossa profissão.

Para mim, é um mistério que este assunto permaneça na sombra, talvez porque pertença àquela categoria rara das coisas que não são discutidas e até o motivo pelo qual não são discutidas é reprimido.

Que tal, então, enfrentar esse tabu? Mais do que constatar, importa desvendar os fatores que nos levaram a isso, já que negar problemas não é atitude de consultor.

O DIAGNÓSTICO

Alguns fatores se compõem para formar o quadro em que nos encontramos agora. É possível que haja outros, mas estes são os principais.

A percepção de que “consultoria é assim”

Quem chega hoje à consultoria encontra um modelo cristalizado. Ainda que o consultor sinta um desconforto interno, passará algum tempo – ou tempo demais – até que perceba a distância quase esquizofrênica entre a imagem pública da consultoria e a realidade interna da profissão para grande parte de nós.

A consultoria continua sendo vendida como um objeto de desejo capaz de nos elevar acima da mediocridade das atividades “normais”, numa forma evidente de propaganda enganosa. Anúncios e peças de divulgação com imagens de jovens sorridentes em cenários bucólicos e aventureiras são os “homens de Marlboro” da atualidade. 

Consultores sêniores não se prestariam a esse papel, porque o pulmão possivelmente estará congestionado.

A falácia do empreendedor de si mesmo

O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, no livro The Burnout Society (erroneamente traduzido para o português como A Sociedade do Cansaço) afirma que o ser humano moderno “se encontra entregue ao excesso de positividade [,,,] e se explora sem necessitar de pressão ou coação alheias.”

O lema do nada é impossível  conduz a “uma autocrítica destrutiva e à autoagressão. O sujeito produtivo está em guerra consigo mesmo”.

“O sujeito produtivo não está sob o domínio de qualquer instância externa que o obrigue a trabalhar ou que o explore. […] O excesso de trabalho e de produção conduz, num nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade (o grifo é meu).

“O ser explorado é simultaneamente o que explora – agente e vítima já não se distinguem entre si. […] As doenças psíquicas da sociedade de produção nada mais são do que manifestações patológicas desta liberdade paradoxal”.

São palavras duras, mas incontestáveis.

A falta de disciplina

Uma consequência direta desses dois desvios é que o consultor se submete e até se orgulha de trabalhar em multitarefa –projetos simultâneos, obrigações conflitantes entre si, atenção dividida, demandas por resposta imediata – que somados produzem angústia e perplexidade.

A capacidade de dizer “não”, de priorizar, de separar o importante do urgente seriam um remédio natural contra esse inimigo que vem de dentro, mas são habilidades pessoais quase abandonadas porque soariam como fraqueza ou fracasso, e consultores aprendem cedo que não devem piscar.

A falta de eficácia pessoal acaba sendo compensada pelo excesso de horas trabalhadas e pelo tempo roubado àquilo que nos daria prazer fora da atividade de consultoria. 

Nada que um Rivotril vendido sem receita médica não faça esquecer.

A terceirização da carreira para as consultorias ou para o mercado

Incapaz de compreender e agir sobre esses dilemas, o consultor abandona total ou parcialmente o controle da própria carreira e da vida pessoal, deixando que transcorram “normalmente” ao sabor dos acontecimentos, projeto atrás de projeto, ou uma empresa atrás da outra.

A consultoria é, inclusive, uma das poucas profissões nas quais é comum que um profissional retorne mais tarde a uma empresa de onde saiu frustrado com a ausência de perspectivas ou magoado com o tratamento recebido.

Ironicamente, a promessa da consultoria é fazer aquilo que gostamos e sabemos, com pessoas que respeitamos, para empresas que admiramos.

Carreira é estratégia, e estratégia não se terceiriza.

A conveniência das consultorias

Seja porque a oferta de consultores é ampla (há muitos soldados disponíveis para substituir os que tombam pelo caminho), seja porque também muitas empresas de consultoria estão sujeitas a dinâmicas parecidas, sem controle sobre suas estratégias, pressionadas pela concorrência e por clientes que progressivamente perderam a capacidade de saber o que é consultoria de verdade – é difícil encontrar uma empresa de consultoria que se preocupe sinceramente com isso .

Projetos deficitários na origem seguem adiante porque, em última análise, o lucro fictício virá do tempo extra imposto (e não pago) aos consultores. Sócios e dirigentes têm o olhar fixo nos bônus de performance, e gerentes são pressionados a simular a lucratividade impedindo que os consultores debitem todas horas efetivamente trabalhadas.

Como agravante, os consultores são adestrados desde muito jovens no fato de que certas horas não podem mesmo ser debitadas.

O descaso dos clientes

Por fim, os clientes manifestam uma confortável indiferença a todo esse contexto. Desde que os projetos sejam entregues sem grandes perturbações, o mundo estará em paz.    

Reuniões descumpridas, validações atrasadas, mudanças de opinião, novos requisitos, nada disso importa, pois o custo será absorvido pelas consultorias e, em última análise, transferido aos consultores, longe dos olhos e do remorso de quem os contratou.

São pouquíssimas as consultorias que têm consciência e coragem para confrontar esse vício do mercado.

A SOLUÇÃO

A cura pressupõe um diagnóstico preciso. Por maior que seja o impacto de encararmos a situação, ignorá-la não nos levará a lugar nenhum.

Felizmente, essa doença pode ser tratada, e o tratamento é simples. Uma dose dupla de Alan Weiss resolve.

A primeira dose tem a ver com rejeitar o senso comum:

Se, de início, você se informar erradamente, ou der ouvido às fontes erradas, você estará vulnerável a alcançar com sucesso um conjunto errado de expectativas. E chegar com brilhantismo a um estado triste que encontro com frequência nos meus programas de mentoria: consultores consumidos pelo burnout, alienados de suas famílias, perdendo dinheiro (…) e, em geral, sofrendo condições que jamais aceitariam como normais em seus próprios clientes.

A segunda dose tem a ver com lutar pelo que realmente conta:

Por mais sucesso que eu tenha alcançado na consultoria, e por maior que seja a minha paixão pelo trabalho, sempre considerei que a consultoria era apenas um meio para chegar aonde quero. No meu caso, o sucesso da minha família, uma vida plena, aprendizagem e crescimento pessoal; a capacidade de contribuir com a sociedade; e a flexibilidade que nasce da segurança e da independência.

Conforme alcance sucesso, você terá a oportunidade de transferir parte da intensidade, paixão, foco, tempo e perseverança que investiu na carreira – e isto é imprescindível para que ela aconteça – aos seus interesses pessoais, sua família, sua comunidade, e seus amigos.

Ironicamente, esse equilíbrio entre vida privada e trabalho servirá para acelerar ainda mais o seu crescimento profissional. O motivo é que ninguém é capaz de se manter cem por cento focado no trabalho durante períodos excessivos. (…) O combustível não dura para sempre; é preciso que seja reabastecido e regenerado.

A boa notícia é que existem, sim, empresas de consultoria excelentes.

Como consultor, você precisa acreditar nisso, elevar a régua, e se preparar para o salto.

Como dirigente de consultoria, você tem a obrigação de liderar a mudança.