Gestão e autoajuda

Fernando XimenesCrônicas

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A prova de que, em algum lugar, água e azeite se misturam

A fotografia se perdeu num celular antigo, mas a imagem continua na memória.

Aeroporto de Santiago do Chile. Aquela espera sem graça por um voo atrasado vindo de não sei onde, e a falta absoluta do que fazer. Abrir o notebook depois de uma semana intensa de trabalho? Sem chance. Passar o tempo no celular, fazendo o follow-up de compromissos inúteis ou navegando sem rumo nas redes? Jamais.

Que tal procurar uma boa antologia de Pablo Neruda, ou algum CD de Violeta Parra? Felizmente, a livraria daqui sempre reserva boas surpresas – e a cultura chilena é rica e diversificada.

Só não esperava uma surpresa assim: por falta de espaço, por malandragem, por escolha, ou pela soma de tudo isso, inventaram uma estante com livros de Gestión y Auto-Ayuda?.

De início, não entendi. Depois, aquilo me incomodou. Não era apenas o fato de Paulo Coelho estar se roçando em Peter Drucker, ou Stephen Johnson, meio cambeta na prateleira, abraçado a Michael Porter, mas a constatação de que muitos livros ditos “de negócios” serem livros de autoajuda antes de mais nada.

Lembrei-me então de uma conversa recente com uma amiga psicanalista, cujo divã anda cada vez mais ocupado por executivos.

O que eles procuram? Acima de tudo, a possibilidade de confessar dúvidas e fraquezas que não podem ser reveladas a ninguém sob pena de destruírem o manto da infalibilidade. Em casa, são heróis diante dos filhos; no trabalho, não podem piscar.

Ali buscam um espaço seguro onde é permitido pura e simplesmente conversar, sem disfarces nem agendas ocultas. Alguns deles choram feito crianças. Outros arriscam cantadas em desespero.

Durante o voo, naquelas horas emocionantes em que lutamos contra o tédio e o desvio de coluna – e, portanto, só nos resta pensar – tive uma intuição desconfortável.

Há alguns anos as livrarias físicas e virtuais começaram a se encher de títulos falando de revoluções: empresas que surgem do nada para redefinir mercados; ícones corporativos que desaparecem como dinossauros; gênios empresariais de 23 anos brotando de garagens como cupins no verão; a transformação radical como regra; o Golias enfurecido da inteligência artificial; a experiência como fator de desvantagem competitiva; e a paranoia como a única estratégia viável de sobrevivência.

Em resumo: assistimos à progressiva construção do medo. A febre (sim, febre, infecção) da autoajuda é uma das suas consequências.

Mas, no fundo, o que de fato está acontecendo no Brasil que precisemos gerenciar segundo esses paradigmas e modelos?

Nossas raríssimas multinacionais vendem commodities ou produtos de transformação básicos; a nossa única indústria de alta tecnologia (Embraer) foi entregue às pressas, como quem se livra de um incômodo; nada temos que conviva com a montanha-russa de inovações que se destroem como matéria e antimatéria; nossa bolsa de valores é uma espécie de cassino de bairro; a maioria das empresas inovadoras que surgiram do nada e redefiniriam nossos mercados voltaram ao pó — depois de consumir uma boa grana de capitalistas de “risco” que mamam nas tetas do BNDES e da FINEP.

Será que estamos reagindo a um medo que não nos pertence? Será que essa infindável literatura de autoajuda empresarial que entope as nossas mentes é o remédio para uma doença da qual não padecemos?

Muitos desses livros foram escritos por estrangeiros; contudo, vários são de autores nacionais. O que significa isso? É possível que estejamos sendo tratados contra doenças alheias? Receitando aspirina a quem sofre de crise de identidade?

Sem dúvida, temos medos. Eles são concretos — e são muitos! Mas desconfio que deles não se esteja falando. Ainda não saíram dos consultórios dos psicanalistas para as listas de best-sellers.

Fernando Barcellos Ximenes

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