A sombra de 1984

Fernando XimenesDesenvolver Habilidades de Consultoria

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Até aonde pode ir a interferência das empresas na psicologia de seus funcionários?

“Os funcionários já têm acesso a medicamentos […] que aliviam a depressão e também são capazes de modificar a personalidade de maneira a torná-la adequada aos interesses da empresa. Por quanto tempo os executivos mais ambiciosos se contentarão com obter um desempenho apenas adequado de suas equipes?”

Sempre me intriguei com os esforços feitos pelas empresas para mudar o meu comportamento.

Alguns foram sutis e inconscientes. Por exemplo: o presidente de uma delas fumava charutos bem antes que tivessem virado moda vulgar. Europeu, elegante, havia aprendido a manejá-los como arma de negociação, e como forma de abreviar reuniões inúteis. A princípio, ninguém aguentava o cheiro na sala fechada; com o tempo, porém, toda a Diretoria foi-se convertendo, e houve um momento em que os não fumantes passaram a ser olhados com certo desdém. Nunca fumei …

Outros foram intencionais, e ao longo de quase três décadas, eu já:

  • Subi em árvores, fiz tirolesas, joguei-me em redes de cordas na crença de que assim aprenderia a reconhecer limitações e vencer medos (acabei ficando viciado em escalar escadas só porque têm degraus);
  • Liderei equipes em batalhas de paintball nas dunas para exercitar minha capacidade de descarregar a raiva nos colegas de outros departamentos (acho que não peguei bem o espírito da coisa);
  • Fui reprogramado neurolinguisticamente umas três vezes para não pensar bobagens (é verdade que fiquei mais objetivo, mas sinto que tentaram me transformar em Fernando Collor);
  • Aprendi a sentar educadamente sobre bolinhas de tênis (não me lembro bem para quê);
  • Batuquei Jean-Michel Jarre algumas dezenas de vezes aguardando o retorno dos intervalos (para esquecer o “Bolero de Ravel” da vida empresarial);
  • Perdi a conta das ocasiões em que me ensinaram os sete instrumentos indispensáveis à sobrevivência no deserto (só tenho dúvidas sobre se, algum dia, estarei perdido no deserto, e se, caso isso aconteça, terei tantas escolhas);
  • Resolvi um sem-número de quebra-cabeças no escuro, para aprender a seguir instruções literalmente (como se o sucesso nos negócios dependesse da interpretação literal da realidade);
  • Ouvi palestras de aventureiros simpáticos e tímidos (perfeitas para aumentar a minha coleção de livros autografados);
  • Com técnicos esportivos de ética duvidosa aprendi os segredos dos campeões (sem mencionar o ocasional suborno aos juízes);
  • Assisti fraudadores e corruptos dando lições sobre ética (talvez fossem aulas práticas sobre a utilidade da hipocrisia no mundo empresarial, mas demorei a perceber);
  • Revisitei minha infância, escrevi testamentos e deixei registrado o meu legado ideal (para compreender a distância entre intenção e gesto);
  • Gurus orientais exilados me ensinaram a relaxar sob tensão (peraí: essa gente sabe mesmo o que é a tensão de trabalhar em nossas empresas?);
  • Ouvi pregadores – alguns deles meio picaretas – disfarçados de palestrantes tentando me convencer que, com força de vontade, eu seria capaz de conquistar o mundo (só se esqueceram de me perguntar se eu estava feliz aqui no meu cantinho);
  • PhDs simpáticos e gorduchos despertaram a minha criatividade e me ensinaram a “pensar fora da caixa” ligando nove pontos com quatro traços contínuos (ou será que era um exercício para testar a memória; ou a paciência; ou a capacidade de realizar tarefas inúteis sem reclamar?);
  • Troquei energia de mãos dadas com gazelas macias e brucutus suados (o saldo energético é próximo de zero);
  • Deixei-me levar no escuro, com os olhos vendados, por pistas de obstáculos entre restos de coffee breaks e papéis espalhados no chão (para aprender a confiar em quem, se pudesse, me jogaria pela janela);
  • Analisei meus valores para aprender a gerenciar o tempo, separando o importante do que é apenas urgente (mas isso foi antes do WhatsApp …);
  • E fiz muitas outras coisas que teria vergonha de confessar aqui.

Por incrível que pareça, ainda encontrei tempo para me concentrar no trabalho …

Não é que tudo isso tenha sido ruim; como dizia o velho Leibnitz, eu também caminharia umas boas léguas para ouvir um inimigo, se pudesse aprender com ele.

Mas as questões essenciais são outras:

  • Qual a possibilidade concreta de uma mudança de comportamento sem que exista uma decisão pessoal consciente de mudar, ou uma crise que force o questionamento de hábitos arraigados?
  • Alguém acredita que seja possível modificar de maneira substantiva a personalidade de uma pessoa com meia dúzia de treinamentos comportamentais e com uma psicologia de botequim?
  • Por que as empresas vêm adotando o princípio de que os funcionários devem cuidar cada vez do próprio desenvolvimento profissional e, simultaneamente, passaram a agir sobre a sua vida psicológica?
  • O que aconteceria se invertêssemos a equação: a maior parte do esforço de recrutamento e seleção estaria voltado para encontrar pessoas com os princípios, o talento, as atitudes e o perfil pessoal desejados, e a maior parte do desenvolvimento estaria dedicada a aperfeiçoar as competências profissionais?
  • Será que, agindo como hoje, não acabamos ficando com o pior dos dois mundos: pessoas medianamente engajadas, e medianamente competentes para a função?
  • E, o que é mais importante: qual o limite entre o razoável e o eticamente indefensável?

Qual o significado de uma instituição com o peso e a influência da Harvard Business School ter proposto no início década de 2000 o caminho descrito na abertura deste artigo como uma de suas ideias revolucionárias (breakthrough ideas) para o futuro das empresas, e depois ter feito desaparecer da internet todos os traços do que havia publicado?

Se hoje enfrentamos a invasão dos nootrópicos e a epidemia do burnout, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, é indispensável reconhecer as suas origens intencionais e involuntárias, se quisermos fazer algo sério a respeito. Só não temos o direito de fingir inocência.

Fernando Barcellos Ximenes


OBS: Este artigo foi escrito originalmente em 2006. Apenas o parágrafo final é de 2019.

Ilustração PXHERE, Licença Creative Commons Domínio Público