A vingança do empresário

Fernando XimenesSem categoria

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Uma crônica séria e bem humorada sobre os caminhos e descaminhos da gestão empresarial.

A ocasião era especial. Um empresário brasileiro, rico e bem-sucedido, estava concluindo sem sobressaltos o processo sucessório de sua empresa. Os planos agora eram outros, mais pessoais e descontraídos. Aos 74 anos, dos quais 58 haviam sido dedicados ao trabalho, ele decidira cuidar da pintura, das leituras, dos amigos e dos netos.

Como parte das cerimônias de despedida, resolveu organizar uma festa diferente, para a qual foram convidados consultores, assessores, professores, seminaristas, integradores de sistemas e palestrantes que, de uma forma ou de outra, haviam prestado serviço à empresa durante a sua gestão. Não era pouca gente, vários norte-americanos e europeus entre eles; havia até um guru de verdade, indiano.

Durante alguns meses, o trabalho das secretárias da diretoria ficou prejudicado pela busca incessante de tanta gente …  Mas ele insistia em que todos os vivos estivessem presentes.

A festa foi realizada numa fazenda, no interior de São Paulo, para onde os convidados seguiram de avião ou helicóptero. Comida e bebida fartas, com muitas personalidades do governo (inclusive o Presidente) e do mundo dos negócios. A conversa ia animada quando, lá pelo fim da tarde, alguém se aproximou do microfone e anunciou: dali a quinze minutos, Chico Buarque iria fazer uma apresentação exclusiva.

A surpresa foi imensa. Agitação no mulherio, agitação no sentido inverso nos marmanjos, e a sensação geral de que estavam diante de um momento único: uma apresentação privada de um dos gênios da nossa música não é para qualquer um, nem acontece todos os dias. Foram muitos os elogios à grande idéia do empresário.

O palco na penumbra, o corre-corre do pessoal de apoio fazendo os ajustes finais, e logo o conjunto começa a executar uma breve introdução que antecipa a chegada de Chico Buarque. Início do show.

Entretanto, em menos de cinco minutos, uma sensação desconfortável se apossou dos presentes.

– Estranho …

– Chico está com uma voz diferente, hoje. Deve ser a friagem …

– Peraí .. Chico Buarque não participa dessas coisas!

– Esse cara não é o Chico Buarque!!!

– Acho que o velho pirou. Essa história de se dedicar à pintura sempre me pareceu uma desculpa.

O espetáculo prosseguia.

Cochicha daqui, cochicha dali, um antigo assessor do empresário foi escolhido para, em nome dos colegas, perguntar ao dono da festa se aquele era mesmo o Chico Buarque, ou o que estaria acontecendo. A conversa entre os dois ninguém presenciou.

Mas, em seguida, o empresário se dirigiu ao microfone na beira da piscina, e com um ar incomum de ironia, ponderou:

Durante algumas décadas, vocês me venderam de tudo … alguns bem-intencionados, outros nem tanto: já tivemos, nas minhas empresas, organização funcional, gerência por objetivos, grid gerencial, análise transacional, programação neurolinguística, reengenharia, qualidade total, planejamento estratégico (poderíamos contar a história da evolução das teorias de planejamento só com os projetos que realizamos), workshops de visão (com direito a algumas alucinações), declarações de missão, ERP, liderança baseada em princípios, meditação transcendental, círculos de qualidade, as diversas gerações do marketing (propaganda, posicionamento, marketing de relacionamento, marketing um-a-um), excelência empresarial (quer dizer, não sei se tivemos mas um dia nos fizeram acreditar que bastaria fazer um projeto bem caro e o problema estaria resolvido), escritórios sem paredes, caos (isso foi logo depois de sermos reengenheirados), equipes auto-dirigidas, grupos de alto desempenho, expedições de turismo receptivo e exportativo para atividades de benchmarking, destruição criativa (a destruição eu vi, porém tenho dúvidas sobre a criatividade), customização de massa, concursos de idéias dos funcionários, fábrica virtual, produção enxuta, teoria X, Y e Z, unidades estratégicas de negócios, conglomerado (entramos em bancos, agricultura, telecomunicações), foco nas competências essenciais (saímos dos bancos, agricultura, telecomunicações), fusões e aquisições, centralização, descentralização, spin-offs, consolidações, investimentos em startups da Internet (quanto dinheiro desperdiçado, meu Deus, quanto dinheiro), terceirização, downsizing, empresa baseada no conhecimento … desculpem: aos 74 anos, às vezes a memória me falha, mas sinto que não consigo me recordar nem de dez por cento do que passou por aqui. Ah, as tecnologias revolucionárias — mas dessas não quero mesmo lembrar.

Por orientação de vocês, testei aqui nas empresas todas as teorias possíveis e imagináveis – até me lembro de algumas de deram certo, mas não quero ser indelicado com ninguém …. A verdade é que por isso — ou apesar disso — minhas empresas prosperaram, e hoje me permitem realizar mais uma insensatez: o investimento nesta festa é pessoal, e tem por objetivo realizar um prazer também pessoal: antes de me afastar, quis que cada um de vocês — que tanto gato por lebre me venderam — tivesse a oportunidade de provar, uma vez na vida, o gosto do próprio remédio. Ave, Chico. Solta o som !”

 


Esta é, evidentemente, uma história falsa. Porém ela foi inspirada num acontecimento verdadeiro, relatado por Affonso Romano de Sant’anna em seu livro Desconstruir Duchamp – uma coletânea de artigos na qual disseca o processo que transformou a arte contemporânea, ao longo das últimas décadas, num grande mercado no qual a qualidade artística não conta, por obra de investidores, leiloeiros, fundações, curadores, galeristas, divulgadores, jornalistas (que substituíram os críticos), pela indústria de construção de museus, e pelas empresas que, com suas coleções particulares, exacerbam o talento e o valor de quem muitas vezes não os possuí.

Como explicar centenas de milhares de dólares pagos por latinhas com bosta (vendidas com o título de Merda do Artista), penicos, lençóis manchados, rodas de bicicleta, telas totalmente brancas ou telas totalmente pretas?

Pois um milionário norte-americano, grande colecionador de arte contemporânea, fez justamente isso. Reuniu toda a gente que lhe havia vendido obras de “arte” como essas ao longo de décadas e ofereceu-lhes de brinde-surpresa um show com Willie Nelson, um grande ídolo da música caipira de lá. Porém, quem estava no palco era apenas um impostor. Quando surgiram os protestos, com toda a tranquilidade do mundo ele estranhou a surpresa, e disse: “Durante anos vocês me venderam porcarias; pensei que gostariam também de apreciar uma das minhas.”

 

 

 

Fernando Barcellos Ximenes

Escola da Consultoria

A imagem que ilustra esta crônica é uma obra de Bartolomeo Pinelli, Il Popolo Romano giura di vendicare la morte di Cesare (O Povo Romano jura vingar o assassinato de César) pintada por volta de 1818, hoje no Thorvaldsen Museum, Dinamarca.